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O sexismo, enquanto crença na superioridade de um sexo sobre o outro, espraia-se por todos os espaços e práticas sociais. Nas sociedades patriarcais, como é o caso da nossa, os privilégios masculinos lançam seus tentáculos por todos os lados, alcançando até mesmo a linguagem, oral ou escrita, cujos fundamentos, muitas vezes, são considerados imutáveis. Inúmeras pesquisas demonstram que a linguagem é uma ferramenta bastante útil para a socialização das pessoas, pois através dela representamos o mundo, damos nomes às coisas e reconhecemos os sujeitos sociais, mediante a declaração ou negação de seus direitos. Assim, e por ser produto e produtora da cultura, especialmente da cultura dominante, a linguagem tem servido fielmente ao patriarcado, excluindo e invisibilizando as mulheres na maioria das narrativas e discursos oficiais ou não.

Segundo a filóloga Yadira Calvo, o sexismo – que é uma das manifestações do sistema patriarcal – está incrustado no imaginário das pessoas e na estrutura da língua, fazendo com que esta tenha sexo e com que este seja o masculino. Assim, e diante de uma sociedade que se autoproclama inclusiva e democrática, esta realidade precisa ser discutida, problematizada e transformada, se de fato queremos construir um pacto social fundado na igualdade, sem discriminação de qualquer natureza. E isto se faz de variadas formas, sobretudo através de medidas que visem promover a inclusão e a visibilidade das mulheres nos mais distintos espaços. Trata-se de uma tarefa que pode e deve ser realizada por todos e todas, sendo papel do Estado fomentar reflexões e promover ações afirmativas neste campo.

Para se ter uma ideia, há inúmeros exemplos de sexismo linguístico presentes nos mais variados textos, sejam eles científicos, literários, jornalísticos, artísticos, etc, pois uma característica comum a todos é o seu alinhamento com a visão de mundo que tem o macho da espécie humana como centro de todas as coisas. Nos registros e narrativas de um modo geral, as experiências masculinas são tomadas como referência e as palavras são utilizadas e disseminadas a partir dos seus interesses, sendo incorporadas ao cotidiano como algo que representa toda a humanidade. As experiências das mulheres, por seu turno, são silenciadas ou desprezadas, não merecendo os mesmos registros e nem conformando o padrão da língua. Essa cosmovisão se materializa também nos dicionários e nos manuais de uso e estilo. Ademais, a própria gramática da Língua Portuguesa, que e é ensinada como uma regra neutra, não passa de uma “política da comunicação de um clube sexista”, conforme pontua Calvo.

Este sexismo se manifesta, por exemplo, quando usamos o masculino genérico para nos referir a homens e mulheres, ou quando tratamos determinadas profissões somente no masculino, como médicos, advogados, psicólogos, juízes, por exemplo. Frases como:  “o trabalhador deve exigir seus direitos”; “os alunos devem comparecer pontualmente”; “os brasileiros gostam de samba”, “os juízes são comprometidos”; “a Ordem dos Advogados,”etc, constituem exemplos de androcentrismo linguístico. Tudo isso invisibiliza as mulheres e coloca a língua numa posição de cumplicidade com as práticas de perpetuação da desigualdade. Em face disto, os feminismos propõem nomear as diferenças. Isto é: mudar a linguagem para mudar a realidade. A começar pelo reconhecimento de autoras mulheres e pela inclusão do feminino na comunicação diária. Para tanto, existem inúmeras recomendações de uso não sexista da linguagem. Uma delas merece destaque porque foi assumida oficialmente pelo governo do estado do Rio Grande do Sul. Trata-se do “Manual para uso não sexista da linguagem”, promovido pela Secretaria Estadual de Políticas para as Mulheres daquele estado.

De um modo geral, são muitas e variadas as estratégias utilizadas pelos feminismos para incluir as mulheres, suas experiências e necessidades, na comunicação cotidiana, ou seja, para fazer com que mais da metade da humanidade seja nomeada no uso diário da língua. E não se trata de uma tarefa fácil, mas é como redescobrir o mundo.  Mas como seria isto na prática? Bem, há quem use os artigos (o/a, o (a), o-a), mas também há quem opte pelos genéricos reais (pessoas, seres humanos, vizinhança – em lugar de homem, vizinhos, etc). Há ainda os que preferem recursos abstratos (colocando a redação e em lugar de os redatores, legislativo em lugar de legisladores; corpo docente em lugar de professores).

O ideal é substituir o supostamente genérico “homem” por humanidade, por exemplo. Sugere-se ainda evitar nomear as mulheres como dependentes, subalternas ou propriedades dos homens, como nas seguintes frases, por exemplo: “O presidente Fernando Henrique veio acompanhado de sua esposa, Dona Rute Cardoso”; “Os forrozeiros apreciam vaquejada, cachaça e mulher”; “As esposas dos atletas também se divertiram no evento”; “foram presos dois homens e a namorada de um deles”.

Enfim, são muitas as estratégias e possibilidades de enfrentarmos o sexismo linguístico diário. A tomada de consciência da sua existência já é um grande passo. Procurar refletir sobre o tema com vistas a contribuir com as mudanças que já estão em curso constitui uma atitude de fato transformadora.

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