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Urologista Marcelo Cerqueira Foto: Caique Oliveira/Sintaj

A divulgação da campanha Novembro Azul, a conscientização promovida pelos órgãos governamentais e pela imprensa têm alertado os homens brasileiros para a necessidade de realizar os exames de rastreamento do câncer de próstata. Entretanto, apesar de haver o consenso em relação ao combate à doença, ainda existem muitas questões não totalmente esclarecidas sobre o modo de prevenção, o desenvolvimento da enfermidade e o processo de tratamento. Nesta entrevista, o urologista e diretor técnico do Instituto de Urologia da Bahia, Marcelo Cerqueira aborda as mudanças na metodologia de diagnóstico, tira dúvidas e fala sobre as novas possibilidades que a medicina vem oferecendo para quem tem o problema. “No momento em que houver a suspeita se discute a vantagem de fazer o diagnóstico. Se o paciente entender que é vantajoso você faz as propostas de tratamento, inclusive não fazer nada. Existem pacientes que, com segurança, você não trata. A chave de tudo é o esclarecimento das pessoas”, afirma o médico.

 

RS – Durante muito tempo divulgou-se que os homens a partir dos 40 anos deveriam fazer anualmente os exames de rastreamento para detectar o câncer de próstata. No entanto, hoje o Ministério da Saúde só recomenda os exames para homens que apresentarem sintomas…

MC – Na verdade, o câncer de próstata não provoca sintomas. Não se associa o sintoma com a realização do rastreamento. O termo prevenção é consagrado, mas ele não é extremamente adequado. De fato, você não está prevenindo que [a doença] aconteça. A gente trabalha com o rastreamento em uma fase precoce, em que o câncer possui uma chance de cura que beira os 100%. Isso acontece quando o paciente faz a busca ativa. Ele vai ao médico sem sentir nada e procura saber através dos exames. O que mudou foi a recomendação para se iniciar esse rastreamento. Não parece muito efetivo fazê-lo antes dos 40 anos de idade. A ciência mostra que esse diagnóstico, feito de forma tão precoce, não parece mudar a história de vida de uma pessoa que tem câncer de próstata. Se você diagnostica a doença aos 42 e se você só o faz aos 52, provavelmente nada mudará. Os dois pacientes viverão o mesmo tempo. Hoje não se faz mais rigorosamente [os exames] aos 40 anos em todos os homens. Só em casos especiais, como pessoas com forte histórico na família. Do ponto de vista populacional hoje a gente recomenda entre 45 e 50 anos. A incidência maior do câncer de próstata é entre 55 e 60 anos. 

RS – De acordo com a cartilha do Ministério da Saúde sobre câncer de próstata, existem riscos decorrentes dos exames de rastreamento, como você tratar um câncer que não seja agressivo e a questão psicológica de o homem ficar ansioso devido ao diagnóstico. Por isso a recomendação que se faça os exames apenas após o aparecimento de sintomas. Há um debate na comunidade médica sobre isso? Já que o câncer, geralmente, quando apresenta sintomas já está em estágio avançado não compensa correr os riscos resultantes dos exames?

MC – O Ministério da Saúde tem fomentado essa discussão por conta de algumas vertentes [médicas] que acreditam que [o diagnóstico precoce] não parece mudar a história de vida [do paciente] de maneira impactante. Mas existem as exceções, que não são poucas e estão aqui dentro do consultório sofrendo. O homem latino é passional por natureza. Ele não convive bem com a possibilidade de ter uma doença e não fazer nada. Os tratamentos evoluíram muito, as sequelas diminuíram muito também. As perguntas não estão completamente respondidas. A recomendação segura é: faça o exame. No momento em que houver a suspeita se discute a vantagem de fazer o diagnóstico. Se o paciente entender que é vantajoso você faz as propostas de tratamento, inclusive não fazer nada. Existem pacientes que, com segurança, você não trata. A chave de tudo é o esclarecimento das pessoas.

RS – Os fatores considerados de risco, como obesidade e levar uma vida pouco saudável, ainda são inconclusivos no tocante a propiciar ou não o surgimento do câncer de próstata?

Mais ou menos.  Os fatores como obesidade, sedentarismo, alimentação irregular e tabagismo parecem ter uma ação indireta. Por exemplo, já é praticamente comprovado que o câncer de próstata diagnosticado em obesos é mais agressivo. É o fator obesidade que teve interferência direta no câncer ou é o fato de ele ter mais gordura corporal que aumenta a agressividade? Isso nós ainda não sabemos, mas não ser ou não estar obeso é melhor.

Urologista Marcelo Cerqueira Foto: Caique Oliveira/Sintaj

RS – Os exames feitos para rastreamento do câncer de próstata são o toque retal e o PSA [exame de sangue]. Quais os critérios usados pelos médicos para decidir como proceder no processo de realização dos exames?

MC – O toque retal tem 50% de chance de estar falsamente negativo. As chances de você ter um câncer de próstata e o exame de toque dar um resultado normal é muito alta. Como é que você suspeita disso? Porque o PSA está alto. Gera uma suspeita de câncer de próstata e se faz uma biópsia. A chance de isso acontecer com o PSA é de 5 a 10%, talvez 15%. Ou seja, de cem pacientes diagnosticados em cinco deles o PSA não era alto no momento do diagnóstico. Como você fez o diagnóstico? Porque houve alteração no exame de toque. O PSA é mais efetivo, mas não dá para fazer só ele porque 5% em uma doença dessa é muita gente. São exames complementares.

RS – Os homens ainda têm resistência em realizar o exame de toque?

MC – Tem sido extremamente incomum a recusa do paciente. Há dez, quinze anos atrás, talvez fosse mais rotineiro, mas hoje é incomum. O trabalho de conscientização da mídia, do governo, das instituições privadas fez com que seja até vergonhoso para um homem vir aqui e se recusar. Geralmente quando o paciente não quer fazer ele não vem. É mais fácil ele não vir, do que vir e recusar.

RS – Qual a diferença de comportamento entre um câncer de próstata mais agressivo e outro menos?

MC – Em relação aos sintomas, demora de você perceber a diferença. Existe o câncer de próstata indolente, de baixíssimo risco, o de baixo risco e o de alto risco, que é agressivo. A maioria [dos pacientes] está no meio termo. Esses homens se não tratados viverão muitos anos, mas se tratados viverão muitos anos sem doença. Completamente curados. Qual o tamanho do benefício disso para o paciente? Cada um reage de uma maneira. Em geral, o paciente não consegue conviver com a ideia de ter o câncer e deixar para lá. É muito incomum. E, além disso, escolher não tratar um câncer é se inserir num protocolo de vigilância contínua muito rígido. Ele tem que fazer consulta a cada três meses, exames a cada seis, exames muito complexos. Isso em um contexto de saúde pública termina sendo inviável. Fora que essas visitas regulares remetem ao paciente que ele tem câncer. A recomendação no papel nem sempre funciona na prática.

Urologista Marcelo Cerqueira Foto: Caique Oliveira/Sintaj

 RS – Como ocorre o tratamento?

MC – Uma vez que o paciente entende que quer ser tratado existem várias possibilidades. Uma delas, que é o que há de mais novo, é não tratar. Vigiar o tumor e só tratar quando ele ganhar uma relevância técnica. O outro é o mais feito no mundo todo, que é a cirurgia. Tirar a próstata e alguns órgãos vizinhos. Existe também a radioterapia, que é um tratamento que tem a intenção curativa, não é um paliativo, como muitos pensam. O outro é a hormônio terapia. Recomendada quando o paciente não quer se tratar ou para aqueles que têm o diagnóstico tardio. O câncer de próstata se alimenta de testosterona. Se você tirar do homem a sua testosterona o tumor freia. Às vezes de maneira impactante e duradoura. Às vezes com pouco tempo ele torna-se hormônio-resistente.

RS – Alguns estudos apontam que os homens negros correm duas vezes mais riscos de ter câncer de próstata e têm chance três vezes maior de morrer em decorrência da doença do que os brancos. Entretanto, os resultados apontados foram relativamente inconclusivos em relação à causa. Já se descobriu porque isso acontece?

MC – Esse estudo surgiu aqui na Bahia, em Ipirá, e foi feito pelo médico Edson Pasqualini, um baluarte da urologia na Bahia. Foi revolucionário no mundo e provou de forma concreta que as pessoas da raça negra pura tem uma incidência maior de câncer de próstata. Muita gente se pergunta se no Brasil isso ocorre porque existem mais negros e você faz mais diagnósticos nesses homens ou porque de fato os negros estão mais propensos.  O que a gente sabe é que do ponto de vista de prevalência do surgimento é muito mais comum na população negra. Aqui nós somos mestiços. Mas é sabido que o câncer de próstata é mais agressivo em homens negros. Porque isso acontece? Ainda não sabemos.

RS – Além de manter uma vida saudável existe alguma outra recomendação que ajude a evitar o surgimento do câncer de próstata?

MC – Existem vários. Conhecer o seu histórico familiar quando possível. O hábito de vida saudável, se não tem impacto direto tem indireto, sim. Fazer o rastreamento anual conhecendo em que faixa de risco o paciente se enquadra e estabelecer uma rotina de avaliação. Isso vale para todas as doenças, tá? Não custa nada você prevenir a morte.

 

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