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Com cobertura nacional CVV atende pessoas que precisem conversar

 

 

 

“Solidão. Esse é o principal motivo para que as pessoas liguem para o CVV. Nós estamos vivendo hoje a solidão acompanhada. As pessoas estão sozinhas no meio da multidão”. Para Rita de Cássia Marinho, voluntária do CVV (Centro de Valorização da Vida) de Salvador, a sensação de que não tem com quem dividir as aflições é o que faz com que muitas pessoas recorram ao Centro e contem suas dores para um desconhecido.

 

 

Ouvir anonimamente pessoas que precisem de apoio emocional e desejam conversar é o modo através do qual o CVV, associação civil sem fins lucrativos fundada em 1962, em São Paulo, atua no combate ao suicídio. Ligando, de qualquer lugar do Brasil, para o número 188 é possível falar gratuitamente com alguém disposto a escutar e acolher toda e qualquer pessoa que esteja com problemas. De qualquer ordem ou “tamanho”. O serviço funciona 24 horas, todos os dias, inclusive finais de semana e feriados.   

 

“O sofrimento de quem nos procura às vezes pode parecer pouco para outras pessoas, mas [o atendimento] faz muita diferença para quem busca o CVV, para quem consegue conversar”, relata Josiana Rocha, porta-voz e voluntária do posto de Salvador. Ao todo a instituição tem 89 postos de atendimento espalhados pelo país. O posto de Salvador fica no bairro de Nazaré. E, inclusive, precisa de voluntários. De um número ideal de 84 conta apenas com 34 atendentes.

 

 

Dados

De acordo com a OMS (Organização Mundial de Saúde), anualmente 800 mil pessoas cometem suicídio no mundo inteiro. Já no Brasil 11 mil pessoas tiram a própria vida por ano. No país também é alarmante o fato de o suicídio ser a quarta maior causa de morte entre os jovens de 15 a 29 anos. Entre os homens desta faixa etária a retirada da própria vida está em terceiro lugar como causa de morte. Entre 2011 e 2016 69% do número das tentativas de suicídio no Brasil partiram de mulheres.

Para ser voluntário do CVV é preciso ter mais de 18 anos e participar de um treinamento preparatório de cerca de 3 meses. Há dois encontros iniciais em que o candidato conhece a fundo a entidade e sua filosofia de trabalho. Após esse período, começa a conviver com os voluntários que já atendem, momento em que, segundo Josiana, começa a “seleção natural” e as pessoas vão desistindo ou não do voluntariado. Quem termina o curso está apto a atender e escolhe um horário para dar o seu plantão.  

 

Ouvir

 

Os voluntários afirmam que o trabalho é focado principalmente na escuta do outro. Eles não aconselham, criticam ou julgam. Não dizem o que fazer. Fazem questão de frisar que o CVV não substitui atendimento profissional, como psicoterapia, por exemplo. O atendimento é focado no suporte emocional e no acolhimento. “Existe um padrão de escuta lá fora. Primeiro você se escuta e depois escuta o outro. Você tem que aprender a se desconstruir para atender no centro. Essa foi uma dificuldade quando eu entrei aqui”, conta o coordenador e voluntário do CVV Salvador Valdemar Andrade.

 

Além do atendimento através do 188 também é possível falar com o CVV através de chat, voip, e-mail e atendimento presencial nos postos de atendimento. Desde o dia 1º de julho o número 188 está disponível para todos os estados brasileiros. Antes as exceções eram a Bahia, o Maranhão, o Pará e o Paraná cujo número anterior para o contato com a instituição era o 141.

Emoções

Os dados do Ministério da Saúde atestam o que os voluntários do CVV repetem a todo o momento: a depressão e outros fatores que podem levar ao suicídio podem atingir qualquer pessoa. Enquanto as mulheres (31,3%)* são mais propensas a reincidir na tentativa de tirar a própria vida, os homens morrem mais por suicídio (79%)*. Entre os indígenas a faixa etária mais acometida pelo suicídio é entre os 10 e os 19 anos (44,8%).

Os voluntários, inclusive, precisam aprender a lidar com as próprias emoções para ajudar a quem procura o CVV. “Naquele momento, a pessoa que está ligando precisa de apoio. Se eu me descontrolar vão ser dois descontrolados. Eu tenho que sentir, mas não entrar no descontrole. Depois que eu desligo eu posso dar um tempo, beber uma água, chorar” relata João Eudes voluntário do CVV e trabalhador do TJ-BA.

Folhas em branco

A política de sigilo e anonimato do CVV é bastante clara. Não se pergunta e/ou revela nada que possa identificar os que procuram o centro. “Quando eu descobri o CVV eu achava lindo a questão do anonimato. De poder fazer meu trabalho sem que ninguém soubesse” descreve Josiana.

 “Depois de cada atendimento nós somos uma folha em branco para que cada pessoa possa escrever a sua história”, resume Rita de Cássia.

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